E(X)U Cabeça de Cuia

Por Tertuliana Lustosa

Se és homem, tens que ir.

Eu nunca tive medo do Crispim, ou melhor, do Cabeça de Cuia. Nem mesmo depois de me tornar Maria, muitos anos depois de ouvir falar sobre ele pela primeira vez – nem lembro quando foi ao certo. Encontrei o cordel do Juvenal Evangelista perdido na estante do meu avô de Jequié, e foi como um presságio: algum tempo depois aquele cordel viraria carta, junto com outros livrinhos da minha corda. A carta de odú 1 – Exu.

O Cabeça de Cuia é contado como esse monstro que precisa comer sete Marias na lua cheia para desfazer a praga da sua mãe. Eu, na lua cheia do dia 26 de Agosto de 2018 estarei lá no encontro dos rios Poty e Parnaíba. E estarei armada. Por enquanto, ainda me encontro nas favelas do Rio de Janeiro, é dia de jogo do Flamengo e mantenho minha umbigueira amarrada na cintura por recomendação da minha yalorixá, e não vou retirá-la por todo o mês de agosto.

Quando contei para minha mãe que iria encontrar o Cabeça de Cuia, ela logo disse: Cabeça de Cuia é tu. O que menos falta por lá é cabeça de cuia… Vai bestar em Teresina ein… Depois falando sobre lua cheia, ela me contou de um rapaz de Corrente que xingou – ou matou (ela não tem certeza) – a mãe e que ela, por sua vez, jogou uma praga no filho: toda noite de lua cheia ele virava pneu e minha mãe, na época criança, não saía de casa com medo.

8 de Agosto

 

Graça Vilhena disse que matou o Cabeça de Cuia.

Dadinha Leal pintou Num Se Pode.

Genivaldo Costa, Jota Silva, Avelar Amorim, Miridam, Cabeça de Cuia, Num Se Pode.

A gente escreve como a gente fala.

Faltam menos de dois dias para a lua cheia, ainda é madrugada e, portanto, faltam ainda mais luas que dias.

A seguir, reunião de imagens da viagem que dei uma olhada hoje. As Machadinhas de que estão na região de Caracol, Piauí, milenares que a etnia Krahô usa como objeto (kàjre), história, saberes através do som: o som ouvido pela história dos machadinhos e o som que é o canto resultante disso. Dos kàjre que Camila Aranha me apresentou.

Amanhã tomarei um banho no encontro dos rios Poty e Parnaíba, já é de tarde e o sol está rachando.

25 de Agosto

“Cobra canianana fica bem aí, vem lá do Maranhão.”

“Jiboia não tem veneno? Pois fica! Ela se enrola todinha no caba e mata sufocado.”

“Diz que quando gente morre a tatuagem fica pra sempre. É coisa do demo.”

“É viado!”

“É viado? É sim! É não, tá é tirando foto do piriquito.”

“Cabeça de Cuia é uma estátua.”

26 de Agosto

Prestes a deixar Teresina, eu e meu primo avistamos a casa do vizinho pegar fogo. Na estrada para São Raimundo Nonato, vários incêndios na mata. E na poltrona 7 do ônibus da empresa TransPiauí, eu lia Rio Subterrâneo, de O.G. Rego de Carvalho:

“Lucínio detém-se à porta do quarto, ébrio pela magia das sombras que o envolvem. Ruídos estranhos dominam a noite: chuva no telhado, biqueiras caindo na pedra, fora das latas; ressonâncias de folhas que se agitam, de porcos que grunem, pios de aves agourentas, soluços perdidos (quem chora?); cabeças-de-cuia que gemem à flor das águas inquietas – assombrações do rio.”

(O.G. Rego de Carvalho, Rio subterrâneo)

27 de Agosto

Em São Raimundo Nonato estão acontecendo as festas do padroeiro da cidade, que durarão a semana inteira. Próximo ao Real Hotel – onde estou hospedada -, existe o Rio Piauí, que é intermitente e que estava seco, era possível escutá-lo, no entanto.

Do hotel até o Museu do Homem Americano, me chamou atenção um universo de grafites e pixações espalhados pela cidade. Lembrei no caminho que minha professora havia dito que se pegar alguma pedra em São Raimundo Nonato, a pessoa tem que devolver para o mesmo lugar onde pegou. Itá é pedra em tupi…

No Museu do Homem Americano, novamente me deparo com um machadinho datado de mais de três mil anos.

28 de Agosto

É chegado o último dia desse diário. Com Antoniel, guia e morador nascido na região da Serra da Capivara, imergi nesse rio de milênios atrás, quando a região possuía um clima tropical úmido e não semiárido. Eram rios imensos, e por ali o mar passou até uma mudança topográfica realizada pelos movimentos das placas tectônicas.

Mãe é sagrada. No caminho para o Parque Nacional Serra da Capivara, Iemanjá e suas águas…

 

Foram centenas de fotos de pinturas rupestres, datadas entre três a doze mil anos atrás, no entanto, para este diário, coube apenas uma. Exu é tempo. E finalizo aqui com um Laroiê.

Laroiê Esú! Mojubá Esú!

29 de Agosto

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