Corpos, literatura e pluralidade

Por Maria Clara Pinto

 

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(OBRA: A COR DE CATU,  DE VENTURA PROFANA)

“Nu, eu estou e sou com os outros. Nu, estou exposto à partilha do sentido.” (NANCY-LUC, Jean. Corpo, Fora. p.14) 

  • INTRODUÇÃO:

A proposta de estudar corpos que transgridem a norma binária, que está baseada numa suposta biologia, surgiu bem antes de entender tais “conceitos”. Ou melhor, PREconceitos enraizados na sociedade que nos cerca. Outrora à minha entrada a universidade, assisti, juntamente com uma amiga, o filme “A Garota Dinamarquesa”, que se passa em Copenhague, no séc. XIX.

Posteriormente, já na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), cursando Letras, no primeiro período, em Teoria Literária I, tive acesso ao conteúdo em que, afirmava-se, que literatura era uma quebra de sentidos, segundo o autor russo Tzevan Todorov. E assim, no final desta matéria, uma das sugestões na lista de títulos para trabalho era o próprio filme/livro que tive contato antes. Logo, para que pudesse pensar a crise da representação através de um romance em que a personagem demonstra relação metamórfica no corpo e na linguagem, (re)conheci outro romance da escritora Virginia Woolf.  Orlando, uma biografia. Desta forma, escrevi não para Teoria I, mas Teoria III, no final de 2017.2, o trabalho METAMORFOSES E TRANSGRESSÕES: Através da literatura de Virginia Woolf e David Ebershoff.

O trabalho abordava principalmente a virada do romance do séc. XVIII pro XIX, e como, ambas as obras traziam à tona, cada uma resguardava a sua própria especificidade, um questionamento do corpo/identidade, que também pode ser entendido como um questionamento da própria representação mimética. A crise nas narrativas era construída entorno da vida dos personagens principais, porém de um lado, na obra de David Ebershoff, se dava pela transgressão de um ser mortal, e por outro lado, na de VirginiaWoolf, era de ser imortal, que ultrapassava os anos na Inglaterra.

Esse foi de fato, o inicio e superficial contato com corpos que não se identificavam com sua dita e definida pelos cientistas, como “natureza”.  Mas, a UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), com sua grandiosidade, apesar de todos os problemas que vem enfrentando, abriu-me portas. O prédio do COART estava disponibilizando aulas de Escritos Trans: Literatura, Gênero e Poder. E aconteceu esse trabalho. Esse projeto nasceu. Agora.

Agradecimento especial, não apenas por sua abertura profissional, mas pela sua incrível existência, resistência, Tertuliana Lustosa.

– Maria Clara Pinto

 

  1. UMA TAL BIOLOGIA:

 

Na obra Fundamentos da Biologia Moderna, de Amabis e Martho, que foi publicado pela Editora Moderna em 1990, mais precisamente, na Unidade VI que é intitulada como Anatomia e Fisiologia dos Animais, trata-se no Capitulo 20 de que modo a reprodução humana acontece. Porém, o que é de fato essencial neste conteúdo, são imagens da genitália binária (feminina e masculina), dado pelo olhar científico, que nos dão uma visibilidade corporal padrão; norma. Portanto, para ilustrar melhor o que há no livro de Amabis e Martho, seguirá abaixo, a introdução do capitulo já citado e juntamente, haverá fotos similares que  mimetizam as originais:

A função primordial do aparelho reprodutor é perpetuar a espécie. Ele é responsável pela reprodução dos gametas e pela secreção de hormônios que determinam as características sexuais secundárias e controlam inclusive o impulso sexual.
Como já estudamos, há grande variação nos processos reprodutivos dos vertebrados. Há animais que simplesmente lançam seus gametas na água e outros que realizam o ato sexual, o que aumenta grandemente a chance de a fecundação ocorrer
Neste capitulo centraremos nossa atenção no aparelho reprodutor da espécie humana. Estudaremos também os principais mecanismos que garantem a perpetuação de nossa espécie. (AMABIS E MARTHO, Fundamentos da Biologia Moderna, 1990, p.309)

Após a leitura científica dos corpos definidos como “masculino” e “feminino”, e dada sua função principal, que seria gerar mais indivíduos, ignorando qualquer tipo de sensação prazerosa, chega-se no ponto fulcral: O que é um corpo? “Ou melhor: o que significa pensar, se pensar é pensar os corpos?” (NANCY-LUC, Jean. Corpus, p.17). Isto é, o que é natural?  O gênero é de fato uma imposição social?  A orientação sexual? O que a sociedade patriarcal ocidental nos deu? O que ficou? O que se pode mudar?

À vista disso, em uma entrevista realizada no dia 23 de maio de 2018, para a Oficina de Escritos Trans da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), em que a psicóloga e doutora em Psicologia Social, do Trabalho e Organizações pela Universidade de Brasília, Jaqueline Gomes de Jesus, que também é transfeminista negra e autora do texto “A Verdade Cisgênero”, nos apresenta como é essencial o reconhecimento de pessoas Cisgênero, tendo em vista, que são elas que possuem privilégios maiores e circundam/cerceam corpos Trans. Além disso, de matar não apenas seus corpos, mas também, seus ideais, indicado como epistemicídio. Assim, abaixo será perpetuado um trecho da entrevista feita:

    “Oi gente, pra mim é uma alegria ta aqui, estava ansiosa pra vim..e…porque esse curso/essa oficina, que a Tertuliana está oferecendo é muito importante. É muito significativa, que as pessoas participem, que elas estejam engajadas, pra discutir o que a gente está pensando, o que a gente está produzindo, porque em geral as pessoas trans elas são alvo de um epistemicídio,  o que é um epistemicídio? É um conceito que a filósofa Sueli Carneiro fala muito, que a população negra é alvo de epistemicídio né, ou seja, que o pensamento das pessoas negras, não só o corpo das pessoas negras, é morto no Brasil mas também, seu pensamento. Isso é um sintoma da morte. Da morte do racismo. Da morte que o racismo infringe em todos os sentidos… e também da transfobia. Ainda mais quando a gente pensa no Brasil, que é o país que mais mata mulheres trans/travestis no mundo..esse assassinato das ideias/do pensamento também é presente, ou o que a gente produz, geralmente, pela nossa história, pela nossa realidade histórica no Brasil, geralmente é oralitura né.

O que eu chamo de oralitura? A nossa memória oral.”

(JAQUELINE GOMES DE JESUS – 23 DE MAIO DE 2018)

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