Me calar pra que?

O Calabar é uma comunidade
Travada no centro de Salvador
Construída pelos negros
Quilombolas refugiados do sul da Nigéria
Cujo nome do guerreiro era Calabare
Que deu nome à comunidade
O Calabar

Calaboca Calabar
Calar pra que?
Calar por que?
Fiquei calada 9 meses
No ventre da minha mãe
Hoje posso abrir a boca
E lhe dizer:
Sou mulher e quero respeito
Não me ature ou me aceite
Só lhe digo sou humana e quero respeito
Aceite ou aceite

Sou negra sim!
Não tenho vergonha
Não…!!
Meu sangue é batido
Na palma da mão
Grito, grito e digo quem sou
Sou Alana mulher trans negra
Com muito orgulho e amor
Da terra eu vim pra ela voltarei
Grito ao mundo
Que aqui estou e ficarei
Não quero ter tudo nem nada
Só quero que me olhe e me respeite
Digo não à LGBTfobia!

Maior do que a terra é as águas
Maior do que as águas só Deus
Acima de Deus, uma coroa
Maior do que Deus, tô pra ver

Messias nasceu em Roma
Em Roma nasceu messias
Se Oxum me deu esse dom
É porque eu merecia.

(Mãe Alana de Carvalho)

Corpos, literatura e pluralidade

Por Maria Clara Pinto

 

Arquivo em PDF: Corpos, literatura e pluralidade

(OBRA: A COR DE CATU,  DE VENTURA PROFANA)

“Nu, eu estou e sou com os outros. Nu, estou exposto à partilha do sentido.” (NANCY-LUC, Jean. Corpo, Fora. p.14) 

  • INTRODUÇÃO:

A proposta de estudar corpos que transgridem a norma binária, que está baseada numa suposta biologia, surgiu bem antes de entender tais “conceitos”. Ou melhor, PREconceitos enraizados na sociedade que nos cerca. Outrora à minha entrada a universidade, assisti, juntamente com uma amiga, o filme “A Garota Dinamarquesa”, que se passa em Copenhague, no séc. XIX.

Posteriormente, já na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), cursando Letras, no primeiro período, em Teoria Literária I, tive acesso ao conteúdo em que, afirmava-se, que literatura era uma quebra de sentidos, segundo o autor russo Tzevan Todorov. E assim, no final desta matéria, uma das sugestões na lista de títulos para trabalho era o próprio filme/livro que tive contato antes. Logo, para que pudesse pensar a crise da representação através de um romance em que a personagem demonstra relação metamórfica no corpo e na linguagem, (re)conheci outro romance da escritora Virginia Woolf.  Orlando, uma biografia. Desta forma, escrevi não para Teoria I, mas Teoria III, no final de 2017.2, o trabalho METAMORFOSES E TRANSGRESSÕES: Através da literatura de Virginia Woolf e David Ebershoff.

O trabalho abordava principalmente a virada do romance do séc. XVIII pro XIX, e como, ambas as obras traziam à tona, cada uma resguardava a sua própria especificidade, um questionamento do corpo/identidade, que também pode ser entendido como um questionamento da própria representação mimética. A crise nas narrativas era construída entorno da vida dos personagens principais, porém de um lado, na obra de David Ebershoff, se dava pela transgressão de um ser mortal, e por outro lado, na de VirginiaWoolf, era de ser imortal, que ultrapassava os anos na Inglaterra.

Esse foi de fato, o inicio e superficial contato com corpos que não se identificavam com sua dita e definida pelos cientistas, como “natureza”.  Mas, a UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), com sua grandiosidade, apesar de todos os problemas que vem enfrentando, abriu-me portas. O prédio do COART estava disponibilizando aulas de Escritos Trans: Literatura, Gênero e Poder. E aconteceu esse trabalho. Esse projeto nasceu. Agora.

Agradecimento especial, não apenas por sua abertura profissional, mas pela sua incrível existência, resistência, Tertuliana Lustosa.

– Maria Clara Pinto

 

  1. UMA TAL BIOLOGIA:

 

Na obra Fundamentos da Biologia Moderna, de Amabis e Martho, que foi publicado pela Editora Moderna em 1990, mais precisamente, na Unidade VI que é intitulada como Anatomia e Fisiologia dos Animais, trata-se no Capitulo 20 de que modo a reprodução humana acontece. Porém, o que é de fato essencial neste conteúdo, são imagens da genitália binária (feminina e masculina), dado pelo olhar científico, que nos dão uma visibilidade corporal padrão; norma. Portanto, para ilustrar melhor o que há no livro de Amabis e Martho, seguirá abaixo, a introdução do capitulo já citado e juntamente, haverá fotos similares que  mimetizam as originais:

A função primordial do aparelho reprodutor é perpetuar a espécie. Ele é responsável pela reprodução dos gametas e pela secreção de hormônios que determinam as características sexuais secundárias e controlam inclusive o impulso sexual.
Como já estudamos, há grande variação nos processos reprodutivos dos vertebrados. Há animais que simplesmente lançam seus gametas na água e outros que realizam o ato sexual, o que aumenta grandemente a chance de a fecundação ocorrer
Neste capitulo centraremos nossa atenção no aparelho reprodutor da espécie humana. Estudaremos também os principais mecanismos que garantem a perpetuação de nossa espécie. (AMABIS E MARTHO, Fundamentos da Biologia Moderna, 1990, p.309)

Após a leitura científica dos corpos definidos como “masculino” e “feminino”, e dada sua função principal, que seria gerar mais indivíduos, ignorando qualquer tipo de sensação prazerosa, chega-se no ponto fulcral: O que é um corpo? “Ou melhor: o que significa pensar, se pensar é pensar os corpos?” (NANCY-LUC, Jean. Corpus, p.17). Isto é, o que é natural?  O gênero é de fato uma imposição social?  A orientação sexual? O que a sociedade patriarcal ocidental nos deu? O que ficou? O que se pode mudar?

À vista disso, em uma entrevista realizada no dia 23 de maio de 2018, para a Oficina de Escritos Trans da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), em que a psicóloga e doutora em Psicologia Social, do Trabalho e Organizações pela Universidade de Brasília, Jaqueline Gomes de Jesus, que também é transfeminista negra e autora do texto “A Verdade Cisgênero”, nos apresenta como é essencial o reconhecimento de pessoas Cisgênero, tendo em vista, que são elas que possuem privilégios maiores e circundam/cerceam corpos Trans. Além disso, de matar não apenas seus corpos, mas também, seus ideais, indicado como epistemicídio. Assim, abaixo será perpetuado um trecho da entrevista feita:

    “Oi gente, pra mim é uma alegria ta aqui, estava ansiosa pra vim..e…porque esse curso/essa oficina, que a Tertuliana está oferecendo é muito importante. É muito significativa, que as pessoas participem, que elas estejam engajadas, pra discutir o que a gente está pensando, o que a gente está produzindo, porque em geral as pessoas trans elas são alvo de um epistemicídio,  o que é um epistemicídio? É um conceito que a filósofa Sueli Carneiro fala muito, que a população negra é alvo de epistemicídio né, ou seja, que o pensamento das pessoas negras, não só o corpo das pessoas negras, é morto no Brasil mas também, seu pensamento. Isso é um sintoma da morte. Da morte do racismo. Da morte que o racismo infringe em todos os sentidos… e também da transfobia. Ainda mais quando a gente pensa no Brasil, que é o país que mais mata mulheres trans/travestis no mundo..esse assassinato das ideias/do pensamento também é presente, ou o que a gente produz, geralmente, pela nossa história, pela nossa realidade histórica no Brasil, geralmente é oralitura né.

O que eu chamo de oralitura? A nossa memória oral.”

(JAQUELINE GOMES DE JESUS – 23 DE MAIO DE 2018)

Prosa em tempos de caos político

Por Tertuliana Lustosa

Alguma coisa que escrevi hoje

eu venho da poesia marginal, aliás; engano; o primeiro treco que publiquei foi “ensaio pra revista acadêmica de arte”; depois cordel, vários; então participei com um conto de um livro impresso(1) #artesanal #independente; eu venho de um lugar híbrido entre marginal e intelectual, #cutaneo e #cibernetico; detalhe na madruga e hoje saiu uma participação minha no Canal Futura, no Cineclube Futura(2), lembrei da minha performance no GNT, no programa Nós os fashionistas(3), que depois liberei no Vimeo.

(1) Tertúlia é uma publicação artesanal independente feita com financiamento coletivo da Ágrafa editora, em que publiquei o conto “O narrador de Xangô”. O lançamento é na Casa Naara, Rio de Janeiro, dia 24 de setembro às 18:30.

(2) O Cineclube Futura é dirigido por Márcio Motokayne e tem Sapartakus como apresentador. Link: http://www.futuraplay.org/video/rua-secreta/447458/

(3) Cordel Pornô é o segundo curta independente de Tertuliana Lustosa (direção, performance e montagem) disponível no link: https://vimeo.com/236549485

E(X)U Cabeça de Cuia

Por Tertuliana Lustosa

Se és homem, tens que ir.

Eu nunca tive medo do Crispim, ou melhor, do Cabeça de Cuia. Nem mesmo depois de me tornar Maria, muitos anos depois de ouvir falar sobre ele pela primeira vez – nem lembro quando foi ao certo. Encontrei o cordel do Juvenal Evangelista perdido na estante do meu avô de Jequié, e foi como um presságio: algum tempo depois aquele cordel viraria carta, junto com outros livrinhos da minha corda. A carta de odú 1 – Exu.

O Cabeça de Cuia é contado como esse monstro que precisa comer sete Marias na lua cheia para desfazer a praga da sua mãe. Eu, na lua cheia do dia 26 de Agosto de 2018 estarei lá no encontro dos rios Poty e Parnaíba. E estarei armada. Por enquanto, ainda me encontro nas favelas do Rio de Janeiro, é dia de jogo do Flamengo e mantenho minha umbigueira amarrada na cintura por recomendação da minha yalorixá, e não vou retirá-la por todo o mês de agosto.

Quando contei para minha mãe que iria encontrar o Cabeça de Cuia, ela logo disse: Cabeça de Cuia é tu. O que menos falta por lá é cabeça de cuia… Vai bestar em Teresina ein… Depois falando sobre lua cheia, ela me contou de um rapaz de Corrente que xingou – ou matou (ela não tem certeza) – a mãe e que ela, por sua vez, jogou uma praga no filho: toda noite de lua cheia ele virava pneu e minha mãe, na época criança, não saía de casa com medo.

8 de Agosto

 

Graça Vilhena disse que matou o Cabeça de Cuia.

Dadinha Leal pintou Num Se Pode.

Genivaldo Costa, Jota Silva, Avelar Amorim, Miridam, Cabeça de Cuia, Num Se Pode.

A gente escreve como a gente fala.

Faltam menos de dois dias para a lua cheia, ainda é madrugada e, portanto, faltam ainda mais luas que dias.

A seguir, reunião de imagens da viagem que dei uma olhada hoje. As Machadinhas de que estão na região de Caracol, Piauí, milenares que a etnia Krahô usa como objeto (kàjre), história, saberes através do som: o som ouvido pela história dos machadinhos e o som que é o canto resultante disso. Dos kàjre que Camila Aranha me apresentou.

Amanhã tomarei um banho no encontro dos rios Poty e Parnaíba, já é de tarde e o sol está rachando.

25 de Agosto

“Cobra canianana fica bem aí, vem lá do Maranhão.”

“Jiboia não tem veneno? Pois fica! Ela se enrola todinha no caba e mata sufocado.”

“Diz que quando gente morre a tatuagem fica pra sempre. É coisa do demo.”

“É viado!”

“É viado? É sim! É não, tá é tirando foto do piriquito.”

“Cabeça de Cuia é uma estátua.”

26 de Agosto

Prestes a deixar Teresina, eu e meu primo avistamos a casa do vizinho pegar fogo. Na estrada para São Raimundo Nonato, vários incêndios na mata. E na poltrona 7 do ônibus da empresa TransPiauí, eu lia Rio Subterrâneo, de O.G. Rego de Carvalho:

“Lucínio detém-se à porta do quarto, ébrio pela magia das sombras que o envolvem. Ruídos estranhos dominam a noite: chuva no telhado, biqueiras caindo na pedra, fora das latas; ressonâncias de folhas que se agitam, de porcos que grunem, pios de aves agourentas, soluços perdidos (quem chora?); cabeças-de-cuia que gemem à flor das águas inquietas – assombrações do rio.”

(O.G. Rego de Carvalho, Rio subterrâneo)

27 de Agosto

Em São Raimundo Nonato estão acontecendo as festas do padroeiro da cidade, que durarão a semana inteira. Próximo ao Real Hotel – onde estou hospedada -, existe o Rio Piauí, que é intermitente e que estava seco, era possível escutá-lo, no entanto.

Do hotel até o Museu do Homem Americano, me chamou atenção um universo de grafites e pixações espalhados pela cidade. Lembrei no caminho que minha professora havia dito que se pegar alguma pedra em São Raimundo Nonato, a pessoa tem que devolver para o mesmo lugar onde pegou. Itá é pedra em tupi…

No Museu do Homem Americano, novamente me deparo com um machadinho datado de mais de três mil anos.

28 de Agosto

É chegado o último dia desse diário. Com Antoniel, guia e morador nascido na região da Serra da Capivara, imergi nesse rio de milênios atrás, quando a região possuía um clima tropical úmido e não semiárido. Eram rios imensos, e por ali o mar passou até uma mudança topográfica realizada pelos movimentos das placas tectônicas.

Mãe é sagrada. No caminho para o Parque Nacional Serra da Capivara, Iemanjá e suas águas…

 

Foram centenas de fotos de pinturas rupestres, datadas entre três a doze mil anos atrás, no entanto, para este diário, coube apenas uma. Exu é tempo. E finalizo aqui com um Laroiê.

Laroiê Esú! Mojubá Esú!

29 de Agosto